PROGRAMAÇÃO
PROGRAMAÇÃO
Notícias
O mundo já acabou, mas combinamos de não morrer
Por Pedro Azevedo
28/09/21 às 15h42

     O título da #4 Sessão Circular é "O Mundo Acaba Aqui", mas isso não significa dizer que os filmes que compõem esse programa apresentam narrativas apocalípticas ou necessariamente pessimistas. "O Mundo Acaba Aqui" tenta estabelecer, na verdade, um espaço limítrofe onde o fim é apenas uma das coordenadas que balizam as imagens que se apresentam e se esfarelam diante do espectador. Há uma sensação de instabilidade constante que perpassa todos os filmes do programa, como se as suas montagens atuassem no sentido de embaralhar os planos em configurações que se abrem, repetidamente, para uma opacidade espessa. 

     A verborragia lírica em torno da ideia de um estrelato decadente em "Estamos Todos na Sarjeta mas Alguns de Nós Olham as Estrelas" é a marca de um trabalho intenso e, francamente, brilhante de direção de atores. A constelação de atores e atrizes que João Marcos de Almeida e Sergio Silva reúnem no seu curta abrange alguns dos maiores expoentes do cinema brasileiro recente. A direção de arte, maquiagem e figurino se destacam por se tratar de um filme tão ancorado nas performances e nos diálogos. É curioso notar também que o que está fora de quadro, o horizonte para onde as personagens dirigem o olhar constantemente, não passa de uma abstração, já que a câmera nunca devolve ao espectador a visão desse campo inexplorado. Talvez o mundo lá fora já tenha acabado e o que resta a essa constelação de estrelas é a decadência.

     Já "Abjetas 288" assume uma abordagem bastante frontal na sua relação com a imagem por meio de uma direção de fotografia mais direta, ironizando muitas vezes a filiação automática que se estabelece entre o espectador e as obras publicitárias exibidas na televisão. No filme, duas mulheres deambulam numa cidade sitiada por um estado policialesco e vigilante. A utilização de recursos de montagem rítmica, que aproximam o curta a uma estética do videoclipe, se cruza com um uso igualmente subversivo das convenções da ficção científica distópica, mote que vem aparecendo sistematicamente com bastante força na cinematografia brasileira da última década, vide, por exemplo, "tremor iê", longa de Lívia de Paiva e Elena Meireles.

     "A Destruição do Planeta Live" é outra experiência difícil de categorizar, dada a sua configuração opaca que varia entre registros diretos e imagens hiper tratadas ou sobrepostas por meio de máscaras. Trata-se, sem dúvida, de um filme que se enuncia como filme e que expõe a artificialidade do dispositivo. Talvez esse seja, pensando no conjunto do programa, o curta mais ambivalente em relação ao binarismo utopia-distopia, dado o monólogo final no qual um par de amigos conversam sobre um futuro idílico onde o Brasil deu certo. A espetacularização do suicídio anunciado pelo protagonista (interpretado pelo próprio diretor Marcus Curvelo) faz pensar sobre um regime de hiper exposição de imagens nas redes sociais, na era do compartilhamento massivo de fotos, videos e de lives. 

     Finalmente, "Preces Precipitadas de um Lugar Sagrado que não Existe Mais" é um dos curta-metragens cearenses mais instigantes dos últimos anos, lidando com as dimensões da fabulação e da ficção especulativa de forma absolutamente singular. O filme propõe um revisionismo da história colonialista do Brasil, que segrega em prisões temporais (zonas de sacrifício) e massacra corpos negros há séculos, de maneiras tanto retrospectiva quanto prospectiva. Afinal, o futuro é um devir abstrato e, portanto, intangível, ou ele é construído aqui e agora pela resistência de todos aqueles que combinaram não morrer? Vale ressaltar também o belo trabalho de som e trilha sonora, além dos efeitos especiais, que constroem uma ambiência de ficção científica bem diferente do que estamos acostumados a ver, tanto no cinema brasileiro quanto no estrangeiro.

     Os quatro curtas-metragens que compõem a #4 edição da Sessão Circular são bastante diferentes entre si, mas com um olhar atento é possível encontrar pontos de convergência nas suas narrativas, que dão pistas sobre os "Brasis" do passado, presente e futuro, abraçando as suas contradições e explorando as instabilidades que vem desde a margem até o centro das suas imagens. Há uma linha de pensamento, como defende a escritora jamaicana Nalo Hopkinson, que diz que para as populações negras o apocalipse já aconteceu e segue sendo experienciado há séculos, o mundo já acabou. No artigo referencial de Kênia Freitas acerca do afrofuturismo e do afropessimismo, ela chama atenção para a necessidade de tensionar constantemente a perspectiva da ficção especulativa do afrofuturismo com o pensamento crítico do afropessimismo, e me parece que "Preces Precipitadas de um Lugar Sagrado que não Existe Mais", filme que encerra essa edição da sessão circular, tensiona esses lugares de forma absolutamente singular. O mundo já acabou, mas, como diz Akin no diálogo de encerramento do filme, ficamos juntos e combinamos de não morrer. 

 

Assista aos filmes da #4 Sessão Circular:

 

 

___

Hopkinson, Nalo (2017). "Waving at Trains - An interview with Nalo Hopkinson" in Boston Review. oct., 2017. Disponível em: http://bostonreview.net/podcast/nalo-hopkinson-waving- trains. Extraído do artigo "O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo vs. Afropessimismo - as distopias do presente. Freitas, Kênia (2018).

PARCEIROS