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Poder, trabalho e confinamento
Pedro Azevedo, programador e curador do Cinema do Dragão, seleciona 6 filmes para pensar sobre os temas importantes de quarentena
01/04/20 às 13h44

Por Pedro Azevedo

 

A experiência recente de isolamento social como alternativa eficaz de enfrentamento à pandemia do novo corona vírus no Brasil tem criado dissenso e tensões entre líderes municipais, estaduais e o governo federal. O estado de calamidade pública que reconfigura toda a dinâmica das grandes cidades brasileiras para uma quarentena generalizada vem, da mesma forma, abrindo espaço para que uma minoria privilegiada distorça as discussões básicas em torno da saúde e da economia, com o objetivo desumano e infundado de expor a classe trabalhadora à letalidade do vírus, condenando milhares de vidas à própria sorte e conduzindo o sistema público de saúde a um inevitável colapso. Diante desse contexto que parece aturdir os sentidos e chacoalhar os nossos regimes de percepção do mundo, e claro, da importância da quarentena como única prática possível nesse momento, proponho essa lista de seis filmes para assistir em casa numa articulação livre de temas que parecem centrais no debate atual: poder, trabalho e confinamento. 

 

Naturalmente que esses temas se entrecruzam e atravessam todos os filmes da lista, principalmente no que se refere às relações entre empregados e patrões, mas como programar é também um pouco como jogar cartas sobre a mesa, pensei em agrupa-los em pares. 

 

"Mulheres diabólicas" (1995, de Claude Chabrol) e "O Criado" (1963, de Joseph Losey) são filmes que revelam, cada um ao seu modo, os abusos pervertidos da burguesia e os dispositivos de poder que incidem verticalmente dos corpos dos patrões ricos sobre os servos pobres. O que faz desses títulos subversivos reside na forma com que atribuem aos patrões uma comicidade caricatural ao passo que expõem e desmantelam os costumes mofados da aristocracia anacrônica, resultando em duas tramas labirínticas cujas reviravoltas estão pautadas também numa ideia de reivindicação do poder à classe trabalhadora, mesmo que esse processo se dê por meio da vingança e da revanche.

 

"O ABC da greve" (1990, de Leon Hirszman) é um documentário brasileiro essencial para entender os movimentos sindicais do ABC paulista no fim dos anos 70, quando surge e se notabiliza a liderança de Luis Inácio Lula da Silva. "A fábrica de nada" (2017, de Pedro Pinho) é uma ficção que encena a história real de dezenas de operários portugueses que, entre os anos 1975 e 2016, protagonizaram uma bem sucedida experiência de autogestão na fábrica falida de elevadores da Otis em Lisboa. As paisagens humanas e maquinarias que surgem nos dois filmes, no interstício das disputas políticas, negociações, rupturas e desencontros, acabam por reforçar sempre o ideal de um corpo coletivo que seja capaz de autogerir os interesses dos trabalhadores contra a ganância dos patrões, especulando estratégias de sobrevivência ao mundo do trabalho. 

 

"La casa lobo" (2018, de Joaquin Cociña e Cristóbal León) e "Lazzaro Felice" (2018, de Alice Rohrwacher) traduzem experiências sensoriais de deslocamento do espaço x tempo de formas tão particulares (e por vezes radical), que descrevê-los a nível de trama seria bastante sem graça. Penso que, quando lidos à luz dos acontecimentos atuais, articulando as noções de confinamento e quarentena à exploração da mão de obra numa lógica neo-escravocrata, "La casa lobo" e "Lazzaro Felice" estabelecem pontos de contato bastante obtusos, porém certeiros. Como num par de opostos, em um dos filme temos o confinamento compulsório e punitivo, no outro, temos a fabricação de um espaço fictício de isolamento onde trabalhadores servem aos patrões em regimes análogos à escravidão, ainda que acreditem ser livres. 

 

Os filmes da lista podem ser encontrados nas seguintes plataformas oficiais: 1) YouTube: "ABC da greve" e "Mulheres diabólicas". 2) Mubi: "O criado" e "La casa Lobo". 3) Netflix: "Lazzaro Felice". 4) Tele Cine Play: "A fábrica de nada". 

 

Nesses tempos em que a experiência comunitária da sala de cinema desaparece para dar espaço irrestrito às modalidades individuais de consumo dos filmes em TVs, computadores, celulares, tablets e afins, é essencial seguir vendo filmes e se mobilizar de alguma forma em torno do cinema e das suas ramificações. Ao fim do período de quarentena, nós do Cinema do Dragão vamos estar aqui com muito entusiasmo para dar continuidade a esse trabalho prazeroso que é promover encontros de pessoas e ideias através da exibição de filmes. 

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