PROGRAMAÇÃO
PROGRAMAÇÃO
Notícias
Sessão Circular #3: Impressões e sobreposições
Por Pedro Azevedo
29/07/21 às 13h43

Impressões e sobreposições

Sessão Circular #3

 

Por Pedro Azevedo

Placas tectônicas se agitam e colapsam. Vulcões entram em erupção e anunciam o fim do mundo. Criaturas estranhas emergem das profundezas e um corpo humano (de couro sintético) dança em meio ao caos, equilibrando frutas tropicais na cabeça. ZONA ABISSAL é uma experiência difícil de descrever, mas gosto da ideia de abrir o texto da terceira Sessão Circular com essa imagem mental caótica e hiper fraturada. Impressões e sobreposições, como diz o título do programa, então, porque os filmes experimentais exibidos aqui apresentam algumas estratégias compartilhadas de intervenções nas imagens, particionando-as em pequenas unidades sobrepostas umas nas outras.



 

O cinema experimental e a economia da imagem pobre

Afora algumas ideias já bastante datadas, o texto de Hito Steyerl acerca das imagens pobres ainda carrega certa atualidade quando pensamos na lógica de distribuição do cinema experimental contemporâneo. Nele, ela relembra o manifesto "Por um cinema imperfeito", de Julio García Espinosa, escrito no final dos anos 1960, onde o autor chama atenção para o caráter quase sempre reacionário do "cinema de qualidade". O cinema imperfeito, nesse contexto, operaria como uma via de expressão política reafirmada pela sua própria deformidade técnica. Muito embora qualquer um possa criar "imagens de qualidade" hoje, apoiadas pelas câmeras de alta resolução embutidas nos aparelhos celulares e através das técnicas cada vez mais eficientes de edição e pós-produção, não seria absurdo afirmar que o cinema experimental ainda circula de forma muito semelhante ao processo descrito por Steyerl há 12 anos, quando saiu em defesa da imagem pobre que se infiltra e se espraia na virtualidade em velocidades vertiginosas, criando um campo expandido profundamente ambivalente, pois ao passo que é de facílimo acesso, permanece nichado.

 

"A circulação de imagens pobres cria um circuito, o qual realiza as aspirações originais do cinema militante e de parte do cinema ensaístico e experimental: criar uma economia de imagens alternativa, um cinema imperfeito que exista tanto incorporado quanto para além e abaixo do fluxo midiático comercial. Na era do compartilhamento de arquivos, até o conteúdo marginalizado circula novamente, reconectando públicos espalhados ao redor do mundo".

 

A constituição dessa economia de imagens alternativas através do cinema experimental se confunde, não raro, com o fluxo irrefreável de imagens cooptadas pela lógica neoliberal, mas não se trata aqui de vilanizar as plataformas sobre as quais as imagens circulam hoje, e sim de tentar extrair delas algum sentido de potência num universo regido cada vez mais por códigos e algoritmos. O compartilhamento de filmes na internet, seja através de mostras, festivais, acervos abertos, enfim, acaba por consolidar (não sem as suas contradições) um campo fértil para o cinema experimental, e é justamente nesse contexto que abrimos espaço para esse conjunto de curtas-metragens na Sessão Circular, tentando expandir a atuação do Cinema do Dragão para além da sua sala física, entendendo as modalidades distintas nas quais podemos inscrever os filmes e nos conectar com os espectadores num movimento de crescente descentralização.

 

Enfim, sobre os filmes

O deslocamento dos arquivos para usos poéticos e políticos parece ser uma estratégia comum nos cinco curtas do programa. Chama atenção também como a montagem se estabelece enquanto ferramenta fundamental para cada um deles. Em Doze, há um apelo para o resgate de fitas VHS, suporte há muito obsoleto, criando uma constelação de referências familiares sobrepostas a outros tipos de registro pessoal. A baixa resolução da imagem e a obsolescência do formato são explorados como estratégia estética. A palavra escrita na forma de poesia também ganha espaço de centralidade no curta, transformando-se num dado visual importante.

 

Zona Abissal também utiliza a palavra como recurso narrativo, invocando, a partir dela, uma paisagem mental apocalíptica. As notas circulares de música eletrônica compostas por Orlando Scarpa Neto dão cadência às imagens de Luísa Marques e Darks Miranda, guiando os ouvidos e reconduzindo os olhos numa espiralar que desce rumo ao abismo. Em Pátria, Sunny Maia e Lívia Costa revisitam a história do Brasil por meio das lideranças masculinas que protagonizam a cena política nacional desde sempre. As ideias de patriotismo e nacionalismo, sentimentos fortes associados à extrema direita brasileira, estão invariavelmente associadas às estruturas patriarcais que precisam ser demolidas uma a uma. Um passo simbólico importante nesse sentido foi dado recentemente quando incendiaram a estátua de Borba Gato em São Paulo.


Em meio a uma enxurrada de filmes caseiros produzidos durante a quarentena, Drama Queen se destaca exatamente pela ironia com a qual aborda a precariedade do auto retrato, imprimindo um tom de farsa que atravessa cada imagem e som aleatório que surgem no seu processo de montagem. Tango experimenta várias texturas de fragmentos fílmicos distintos sobrepostos uns aos outros, indo do P&B ao ultra colorido, criando sequências de imagens persistentes que se guiam também pelo ritmo da música, como sugere o seu título.

 

A terceira edição da sessão circular apresenta esse pequeno recorte de curtas experimentais brasileiros no YouTube numa tentativa de fortalecer o circuito de imagens alternativas que consumimos nas plataformas abertas da internet, apresentando também um debate aberto e ao vivo com as realizadoras dos filmes no dia 29 (quinta) às 17h. Esse texto fragmentado serve tão e apenas para colocar em circulação algumas ideias que podem surgir no diálogo entre a curadoria, as realizadoras e os espectadores. Esperamos, finalmente, que os filmes ganhem eco quando assistidos embaralhados e em sequência.

 
PARCEIROS